sexta-feira, julho 28, 2006

Enganar o tempo…

Vamos calcular as armas, tu e eu, de braço dado nesta estrada meio deserta, não sabemos quanto tempo o cessar fogo vão durar...há vitórias e derrotas apontadas pela calada nos diários imaginários onde acumulamos as razões para lutar…Advirto os meus espectros ao virar de cada esquina, para alvoroçar a inocência, quantas vezes te odiei com medo de te amar...Vamos enganar o tempo saltar para o primeiro comboio que arrancar da estação…Para quê fazer projectos quando sai tudo ao contrário…Pode ser que, por milagre, troquemos as voltas aos deuses… Entre o caos, e o conflito a vontade e a desordem, não podemos ver ao longe, e corremos sempre o risco de ir longe demais, pois somos meros transeuntes, somos só sobreviventes com carimbos falsos nas apresentações. Vamos, é, enganar o tempo...

quinta-feira, julho 27, 2006

Estranha Balada…

Tocas as flores murchas que alguém te ofereceu, quando o rio parou de correr e a noite foi tão luminosa quanto a lua que a espreita… Procuras ansioso aquilo que o mar não devorou, e passas a língua na cola dos selos lambidos por assassinos… enquanto a tua mão segura a faca cujo fio possui a fatalidade do sangue contaminado dos amantes ocasionais… hum!!!! nada a fazer, irás sozinho vida dentro com os braços estendidos como se entrasses na água, o corpo num arco de pedra tenso simulando a casa onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia…

Sem encontro marcado…

Perdi as chaves de mim, a caminho da estação, sozinho, tanto trambolhão, mas cá vou andando. Vou apenas andando, nas pedras do caminho traço a minha direcção, os meus olhares para a cidade são mais insónia que prazer. Vejo o tempo a dar-me a volta e a paranóia a crescer, sinto ganas de partir. Não há mesmo nada a fazer, seja feitiço ou feitio só estou bem em contínuo movimento… aqui não dá mais saturado dos salpicos de vida. E cá vou andando, vou apenas andando sem encontro marcado… Encontro quem me apetecer, pois cá vou andando…Sem encontro marcado...

sexta-feira, julho 21, 2006

Anjo sem “Asas”

Quem me cortou as asas, quem me levantou os sonhos hoje, quem se ajoelhou para me humilhar, e quem prendeu a minha alma… Quem me amarrou as mãos, amarou o desejo, matou o sorriso e sangrou os lábios da crença… não percebo como permiti que tal acontecesse… sinto-me a voar como as areias das dunas, desmoronado pelas marés, e invadido pela brisa dos amanhecer… vazia de palavras e do gesto, apenas com recordações rápidas e fugazes… intensamente vividas e talvez imortais…

A velhinha do “Restelo”

Ela despediu-se do seu amor, ele partiu num barco do cais, ele jurou que voltaria e inundada em prantos ela jurou que esperaria. Milhares de luas passaram e ela continuou ali no cais…muitas tardes se aninharam no seu cabelo e nos seus lábios, não mudou seu vestido, para o caso se ele voltasse não confundir-se. Os caranguejos mordiam suas roupas, sua tristeza e sua ilusão e o tempo se passou…e seus olhos se encheram de amanheceres, e pelo mar se apaixonou, seu corpo se enraizou no cais… sozinha, sozinha no esquecimento, com seu espírito, com o seu amor ao mar… sozinha no cais. Seu cabelo branquejou, mas nenhum barco seu amor lhe devolvia… E uma tarde de abril tentaram demove-la de tal sofrimento mas ninguém pode arrancá-la, e do mar jamais a separaram…ficou, ficou, sozinha, sozinha com o sol e com o mar, até o fim….

segunda-feira, julho 10, 2006

Solidão…

Viajo por entre o vazio dos sonhos, procuro, e não sei bem o que, não vejo nada á frente dos meus olhos e pergunto tantas vezes porque. Procuro o sonho, mas ele não existe, não quer existir… Vem o pesadelo, e nem medo tenho, só a solidão minha amiga é, tanto trambolhão, ficamos sem pé… mas depois os outros o que vão sentir? Se depois de tudo quisermos partir? Procuro o sonho, vem o pesadelo, o doce cantinho amigo, nem vê-lo. E depois sem contar vem a alegria, que ao acordar, é amiga, e nos guia….mais um problema, mais um sobressalto. Ai vem o lema do tipo descalço. Haverá descanso? Haverá repouso? O sonho de manso tornar-se-á pouco? Procuro o sonho, vem o pesadelo, doce cantinho. Amigo, nem vê-lo!!!...

sexta-feira, julho 07, 2006

As Férias…

Hoje, vou falar das férias: é o tempo delas, como é tempo das cerejas. Outra árvore dá estes frutos, e a mesma árvore os arranca; os dias as trazem até nós, os dias as levam. Neste escoar se vai o tempo, mas enquanto as férias se aproximam tudo é desejá-las, fazer projectos, embalar ilusões. Chegado o dia, temos diante de nós um espaço vazio á espera, como uma grande sala que é preciso habitar. Que vamos lá por dentro? Os dias de férias ganham de repente um valor que os outros não tiveram. São dias totalmente disponíveis, á mercê da imaginação e das posses de cada qual. O tempo desligou-se da mecânica do relógio, é uma dimensão delimitada, informe, um pedaço de barro diante das mãos que o vão modelar.
As férias são também uma obra de criação. Não espanta, portanto, que no limiar delas um súbito temor nos intimide, aquele intervalo de tempo no qual a dúvida nos invade – que iremos fazer nós com o barro do tempo? Quando elas acabarem, umas lembranças desmaiadas como um sonho antigo é o que nos restará. Nada correu como imaginamos: choveu, veio uma dor de dentes, as paisagens não eram tão belas como as fotografias delas… Tudo isto são ilusões, o mundo está visto e decorado. Ninguém descobrirá a Europa, e a estátua grega, afinal, é uma pobre cópia romana… mas que importa? Este ano vou ter umas férias diferentes, iguais àquelas de infância em que descobri uma fonte nova que ninguém conhecia, se este ano não for, será pró ano. Porque a fonte lá estará…

Pequenas coisas...

Porque há estrelas que brilham mas não se vêm? E existe gente que nunca chego a conhecer mesmo que a possa ver, são como os azuis feridos do amanhecer que se desprendem do céu, arranhando-me… há assim um universo de pequenas coisas que só despertam quando acordadas… tudo o que é belo espera o teu olhar, e o meu também, que sem ti se derrama… há atardeceres que não acabam de pôr-se e um mar inteiro resumindo-se em cada olhar. Há um universo de pequenas coisas onde me vejo a saltar de uma nuvem para outra, e uma promessa que resiste aquela dúvida, talvez deva pedir uma carícia á lua, pois existem recantos onde o sentimento se esconde. Há estrelas que brilham por ai…e lugares que nunca pude conhecer, por isso espero o sol salpicar-me com mares de pequenas coisas, e que os dias amargos tragam flores para adornar as fronteiras do meu mundo… Um olhar sussurra nas minhas costas, quando os segredos se dizem ou se calam... existem recantos onde o por do sol é mais fácil de se ver, há estrelas que brilham mas não se vêm e lugares que nunca pude conhecer…

quarta-feira, julho 05, 2006

Um até sempre...

De entre os envolvimentos em que me meti, o teu foi tão total… mas procuro a melhor forma de que me esqueças e esquecer-te eu, já não encaixo, não te enganes, no teu guião. Não pares nem que o aplauso continue, se o mundo pára só um instante nas minhas mãos já não se vai parar mais… Não quero seguir a ensaiar no meu quarto para fazer um papel, que os anos me negarão pois o tempo não perdoa… Portei-me como um actor quase acabado sei que ao descer do palco, quebrarei por ti as mãos contra o cenário, a golpes contra o calendário, como um maldito fracassado a golpes contra…
Daqueles envolvimentos que me lembro o teu, insisto, foi total… Enquanto durou, soube de novo que significa magistral mas este foi o acto final. Não deixes passar a vida esperando que suba contigo de novo ao palco, já não consigo representar mais… Não deves chorar porque chegas-te, eu parti… pois não quero interpretar mais…

terça-feira, julho 04, 2006

Poema em prosa…

Gosto quando estás calada, pois é como que estejas ausente, e ouves-me de longe e a minha voz não te toca, é como que os teus olhos tivessem voado, e parece que um beijo te fechou a boca. É como todas as coisas estejam cheias da minha alma, no meio das coisas da alma minha… borboleta de sonhos assemelhas-te á minha alma e pareces-te com a palavra melancolia. Gosto quando esta calada, estas como distante, estas como a reclamar, deixa-me calar com o teu silêncio, deixa-me falar também com o teu silencio… claro como a luz, simples como uma criança mas estrelado como a noite. Teu silêncio é de estrela longínqua e sincera, gosto quando esta calada pois é como estejas ausente, distante e dolorosa, uma palavra então, um sorriso basta… e estou alegre, alegre de que não seja assim…

O Verão…

Capa dos sem abrigo lhe podemos chamar, o Verão. No Verão fogem de casa os adolescentes, que o desejo de fuga terá nascido na primavera… o Verão é todo ele apelo, um clamor de festas e de aventuras… e quando o sol povoa de margens e ilhas de sombras o oceano escaldante de luz, ai sim somos todos náufragos da sua imensidão, e arquejamos lentamente enquanto o suor nos percorre o corpo e a alma… O Verão é exigente, não espera, apresenta-se como a polpa carnuda de um fruto da época que reclama a boca predestinada – e que apodrece inútil se o tempo passou em vão. No ramo mais alto da árvore, o fruto expõem ao sol a sua pele perfumada e convoca os pássaros á alegria da maturação. Mas a coroa que o merece é a mão do homem, e o fruto repousa um instante sob o olhar que o deseja… o Verão promete, e cumpre… o Verão é um corpo de mulher que avança como uma imagem de domínio, labareda rompendo labaredas, transportando consigo um segredo de vida que corre sobre as ondas do mar… caí sobre mim uma funda e dolorosa alegria, o Inverno lá virá, mas hoje é Verão….